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Falar de amor... é deixar o amor falar.

Textos


Conto de Natal a 8 mãos


NOTA:
O Conto de Natal a 8 mãos foi lido no Museu do Traje de Viana do Castelo,em Dezembro de 2013, junto de uma plateia fantástica e emocionada.

Simão estava extenuado, já nada fazia sentido. O caminho trilhado fora demasiado longo, as contrariedades sempre o perseguiram… queria descansar para sempre! Assustou-se um pouco com este pensamento mórbido, mas a sua alma assim estava pálida, nostálgica. Com o rosto esborrachado na vidraça do seu recanto olhava… as pessoas caminhavam na rua sob uma chuva incessante. A rua estava escura, os transeuntes estavam algo sorumbáticos…e nem a proximidade do Natal trazia luminosidade àquele canto perdido da cidade. Simão durante alguns minutos perdeu-se e entranhou-se nas suas memórias…. As iluminações davam um colorido festivo à sua rua, a criançada corria alegremente, os seus corações ansiavam pela chegada do Pai Natal. Simão, com a ajuda dos seus adolescentes decorava a árvore de natal e colocavam as últimas prendas debaixo da árvore. Maria bailava na cozinha, que nem uma barata tonta, éramos sempre presenteados com deliciosos petiscos e doces da época. Raramente queria ajuda, dizia ela que se irritava com a intromissão dos outros nas suas panelas e nos seus segredos culinários, além disso o constante provar e penicar dos seus cozinhados, deixavam-na à beira de um ataque de nervos! Na sala deliciávamo-nos a ouvi-la cantarolar, sinal de que estava tudo a correr bem! Caramba….Éramos tão felizes! (Tina Tinoco)
Mas éramos porquê? O tempo encarregar-se-ia de apagar o verbo; “éramos”, já não fazia sentido, porque o agora é presente e o ser de hoje é tão diferente. Acordei destes devaneios, – autênticos hiatos nas ornamentações natalícias – o passado teimava, invariavelmente, em acicatar-me a alma, principalmente nesta época, tipicamente familiar.
Voltei à terra e dei por mim a reconhecer que, embora, já não pudesse conviver com alguns familiares e amigos, embora já não desfrutasse da companhia e dos acepipes da resmungona da Maria, a vida atual tinha o condão de me proporcionar momentos de intenso e raro prazer: os meus netos, Margarida e Leonardo, com quem dou longos passeios, e, que incutiram, nesta velha carcaça, o gosto pela Novas Tecnologias, pelos jogos, pelas redes sociais e pasmem, até pela poesia, logo eu, que sempre fui tão avesso a essas “lengas-lengas de lamechice sem sentido”, achava eu!
Mas voltando atrás, convém repetir que adoro os meus netos, mas tenho que admitir, que na realidade, nunca consegui esquecer a Rosa…tenho o seu amor e dedicação tão alapados no peito, que não passa um Natal, um dia que seja, sem que o espírito dela me visite …uma sensação maravilhosa, que me deixa, apesar de tudo, mergulhado neste estado de letargia que teima em tomar conta de mim.
(Lúcia Ribeiro)
Fiz então uma retrospetiva e verifiquei que o meu estado de espírito não fazia qualquer sentido. Vejo agora com outro ânimo a chuva que cai, e a forma como as pessoas se deslocam na rua. A situação do país não é de facto a melhor, não é a que eu esperava para o futuro dos meus netos, mas tenho que ser otimista e relevar. Pensar no futuro não é tudo…eles ainda são crianças e devo viver o dia-a-dia sentindo a sua felicidade, e olhar o sol nos seus lindos olhos castanhos e verdes.
Este Natal, mesmo sem a mezinhice da Maria, vai ser inesquecível, tenho a certeza, pois a alegria da Margarida e do Leonardo farão isso possível. Vê-los a fazerem os preparativos, já é de todo uma mais-valia, para alegrar a quadra que decorre e o meu mau estar com a vida. “Vá lá Simão, por isto tudo tu és capaz de superar esta má fase da vida”.
Num impulso levantei-me e caminhei, já com um sorriso no rosto, ao saber com o que me iria deparar na sala de estar.
(Raquel Rodrigues)
Ao entrar na sala, deixei-me inundar pelo ar quente da lareira; pelo crepitar das pinhas libertando os pinhões; pelo fumo das travessas das batatas cozidas com hortaliça e bacalhau; pelos aromas do açúcar e da canela. Reparei que, o brilho dos olhos dos meus netos era bem mais intenso que o brilho das velhas luzes do pisca-pisca do pinheiro. Aguardavam, ansiosos, pela hora do dar e receber presentes. Na mesa, uns quantos pratos recheados de iguarias e, claro está, o famoso bolo-rei. Senti-me mais leve e de coração cheio. Afinal, de que me poderia eu queixar se tenho todo este ambiente familiar!?
– Pai, está tudo pronto. Podemos jantar?
– Ah? – A voz da minha filha levou-me a “acordar”, de novo, dos meus devaneios. 
(Daniela S. Pereira)
Mas isso não impediu de me lembrar de novo da Rosa, essa mulher que me deu tanto amor e tanta dedicação. Iria ser mais um Natal sem o amor da minha vida, mesmo que não quisesse não poderia esquecer.
Dirigi-me para a mesa e olhei o lugar dela, vazio, e as lágrimas correram pela minha face e um rio se alagou no meu coração.
Não… Simão, não podes ficar assim, já é tempo de deixares seguir seu espírito, deixa que ela no lugar onde se escontra, está feliz por ti, pelos netos lindos que tendes…
Sentei-me… os miúdos à volta do pinheiro, tentavam adivinhar que presentes receberiam nesta quadra.
Olhei de novo para a janela, e a chuva parecia estar a dissipar-se, levantei-me de novo, encostei meu rosto contra a vidraça, olhei o céu e embora ele estivesse um pouco cinzento, as estrelas brilhavam como se estivessem a querer dizer-me alguma coisa… e, então, dediquei este poema à minha esposa Rosa…
Recebi tantas mensagens de Natal
É bom ter tantos amigos
Mas meus olhos teimosos
Não deixaram de chorar
Pois tua mensagem
Nunca iria chegar
Olhei o céu
A ver se uma estrela caía…
Seria essa a mensagem
Será que Deus permitiria?
Mas ela não caiu
Deus não permitiu
Tem os anjos ocupados
Apenas me sorriu…
– Então avô, vamos jantar?
De novo me “acordaram” deste sonho… 
(Alda Melro)
Apaziguado pelo calor humano de meus netos, qual complemento aguarelado pelo crepitar das pinhas libertando os pinhões e o vermelho abrasador da resistente acha de carvalho, acabaria por sentir uma extraordinária paz de espírito. Penso que essa era a vontade de Rosa… desviei a atenção da cadeira vazia e espraiei o olhar sobre a mesa decorada e preenchida a preceito, quão diferente, mas ao mesmo tempo tão igual (maravilhosa toalha bordada a ponto-cruz pela Rosa, com motivos de Natal, onde não faltavam os sininhos e as folhas de azevinho), à de outros tempos. Os meus netos eram o garante das tradições familiares, quer pelo entusiasmo com que viviam a quadra, quer mesmo pela alegria espontânea com que me presenteavam na minha extenuação passageira. E porque o tempo se apresentasse sob uma chuva incessante, mesmo que com umas estrelas a premeio, lembrar-me-ia da velha máxima de Rochefoucauld, quando um dia afirmou que “a alegria, na vida, é como o sol em certos dias de chuva: só brilha através das nuvens de longe a longe”. Duma coisa tinha consciência, nesta maravilhosa noite, os meus netos estavam a ser o sol e as estrelas do meu Natal…
– Avô, vamos ou não vamos jantar? Quanto mais depressa comermos, mais depressa abriremos os presentes! – Extravasaria em grande alarido a Margarida, interrompendo a minha introspeção.
– Já vou Margarida!...
De facto, a pressa dos meus netos eram os presentes. Mesmo assim, nesta circunstância, o Leonardo era o mais impaciente…
(Porfírio Silva)
Fizemos uma pequena oração de Graças pelo alimento e por mais um Natal juntos e assim iniciamos o nosso jantar de Natal, o tradicional bacalhau com batatas e pencas e umas couves à mistura.
Alguma coisa se passava e eu não estava a conseguir alcançar a magnitude da ansiedade de meus netos. Caramba! Afinal de contas as prendas estavam ali e eles sabiam que mais cedo ou mais tarde seriam abertas.
– Então meninos? Calma! Sosseguem um pouco. – Era o que me apetecia dizer-lhes mas aquela vida e emoção era vital neste Natal.
Chegavam as 23 horas e Margarida e Leonardo estavam mesmo, mesmo a arrebentar de tanto entusiasmo e eu pensava: “uns com tanto Amor e outros com tão pouco ou mesmo sem nada”.
– Avô? Avô! – Gritava o Leonardo da sala contígua à cozinha.
– Que foi meu rapaz? – Retorqui.
– Vem cá avô! Vem sentar-te aqui à lareira que quero contar-te um segredo.
Levantei-me da mesa e segui para a sala e qual é meu espanto: Maria, João, Tiago, Paulo, Tozé, Miguel… a minha querida amiga Maria e os meus meninos… todos ali! Na minha sala, com os meus netos, com o meu bolo de aniversário. Não se tinham esquecido, mesmo tendo passado tantos anos.
– Tás a ver avô? Não fazemos ouvidos de mercador quando nos contas as tuas histórias da Casa dos Rapazes! – Diz Margarida com todo o carinho e delícia de voz de menina. - Esta é a nossa prenda de Aniversário e de Natal para ti, avozinho.
Não sabia que lhes dizer, as lágrimas de felicidade desciam sobre meu rosto tal e qual a chuva incessante que corria lá fora… lágrimas de felicidade… lágrimas com nome, lágrimas com sabor, lágrimas de muito amor. Abracei Maria, abracei os meus rapazes e abracei num abraço apertado e demorado, Margarida e Leonardo. 
(Ângela Cerqueira)
Ecoaram Clarins do Céu, no coração de Simão. Sim, o amor de Maria, o abraço caloroso dos Rapazes que com ele partilharam Natal com a flor da mocidade...e a ternura infinda dos seus netinhos, Margarida e Leonardo!
De repente, sem saber como nem por quê, Simão sentiu-se transportado para uma viagem mágica através do tempo!... Todos eram crianças, naquele preciso momento, e a sua dedicada esposa, Rosa, que partira para sempre, também estava presente a seu lado, com trancinhas e laçarotes às pintinhas. Recolhiam musgo na velha colina de Santa Luzia, num recanto umbroso de encontro às ruínas da Citânia. E dialogavam entre si, irmanados pelo espírito de construir um belo presépio e recolher um pinheirinho, e se possível pinhas mansas, no caminho de regresso a casa...
Já o Sol se despedia da cumeada da serra, quando se lembraram de abandonar aquele recanto sobranceiro a Viana. As estrelas elevavam-se, uma a uma, a cintilar no firmamento.
- Depressa, depressa, vamos embora! – Disseram as crianças em uníssono. Mas os ecos da memória falaram mais alto:
– Que fazeis?!
– Ah...! Nós... tata-mos só a titi-rarmos mu-mu
– Quê?!?
– Mu.. musgo, pró presépio logo à noite na Cidade – disse o Simão.
– …E vamos receber prendas do Pai Natal! – Concluiu Leonardo.
– Não há Pai Natal, só Deus-Menino! Lá em baixo não vive gente, é pantanal!!!
Fez-se uma pausa. Os Anjos viajaram no tempo, despertando o espírito da memória...
– Ah, que surpresa, sois... Viriato...!
– Parai de sonhar! Não vedes que já soou a hora de recolher ao povoado?
Enquanto desciam pela vertente, o musgo, transportado na seira mais singela do imaginário, aquecia as almas na memória do tempo!... As crianças conseguiam ver, simultaneamente, as estrelas que cintilavam mistérios e as luzes terrenas das montras e janelas da cidade e das aldeias em redor, a tremeluzir...como o coração da pequenada tremeluzia pelas guloseimas da noite de Consoada, o jogo do rapa e as prendas possíveis do Menino Jesus ao pé da lareira...
Subitamente, avistaram um clarão sobre as chaminés das casas, com um dístico de azul e branco, luminoso:
Cantai o Cântico dos Anjos
Com suavidade e singeleza;
Cantai Natal em cada dia,
Na Natureza, na Poesia,
Dentro do Meu Coração!
– Então, Avô, que se passa? – Perguntaram, apreensivos, Margarida e Leonardo.
– Ah, desculpem, meus netinhos. Acabei de fazer uma Grande Viagem!
E todos, naquela Casa, depois de Simão apagar as velas do bolo de Aniversário, entoaram, em chama acesa, no convívio da Família, a Magia de Criança!

(Francisco Carneiro Fernandes)
Lucibei, Lucibei, Alda Melro, Ângela Cerqueira, Daniela Pereira, Francisco Carneiro e Porfírio Silva e Raquel Rodrigues.
Enviado por Lucibei em 28/11/2017
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